A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, no final de 2016, novas regras para a retirada da tarja de medicamentos que atendem ao perfil de Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs). Isso significa que, ao longo do ano, mais de 30 produtos estarão disponíveis ao consumidor para aquisição sem receita médica nas farmácias e drogarias de todo o País. Todos para tratar sintomas menores, facilmente reconhecidos pelo consumidor, como dores de cabeça, acidez estomacal, febre, tosse, prisão de ventre, aftas, dores de garganta, assaduras, hemorroidas e congestão nasal.

Profissionais da área de farmácia têm encarado essa reorganização de mercado como uma oportunidade para o farmacêutico reforçar, junto à população, sua imagem de profissional de saúde. Com o crescimento da lista de MIPs, um número maior de medicamentos estará sujeito à venda sem receita, portanto, sem orientação médica. O papel do farmacêutico, nesse caso, é ocupar esse lugar, orientar sobre o uso correto dos produtos que deixaram de ser tarjados e, em alguns casos, prescrever o MIP mais adequado aos sintomas do paciente.

A orientação farmacêutica tem se tornado, cada vez mais, uma prática comum em farmácias e drogarias. As grandes redes já criaram seus consultórios e o setor, em geral, está empenhado em ampliar e regulamentar os serviços farmacêuticos, o que é bom para a população na medida em que o serviço público de saúde demonstra ser incapaz de suprir toda a demanda da sociedade.

População desconhece interações

A farmacêutica e empresária Fernanda Ramos, em 2006, fez um estudo de conclusão de curso intitulado “Avaliação do uso de paracetamol 750mg comprimido em estabelecimento comercial farmacêutico como indicador de automedicação responsável”. Fernanda pesquisou como o consumidor avaliava a compra de um dos analgésicos mais vendidos no mundo e o resultado mostrou que a maioria das informações fundamentais do fármaco não era conhecida pela população.

“Foi aí que constatei ser realmente preciso que o paciente receba orientações farmacêuticas sobre o uso do paracetamol. Os participantes da pesquisa desconheciam as interações provocadas por esse fármaco quando consumido juntamente com outro medicamento ou álcool. Quase ninguém sabe que o paracetamol não deve ser usado para amenizar uma dor de cabeça causada pelo excesso de álcool, pois pode provocar hepatotoxicidade, ou seja, dano ao fígado motivado por substâncias químicas ”, destaca Fernanda. Outra informação importante é que a dose diária de paracetamol para um adulto não deve ultrapassar 400mg. Por esses e outros motivos, a orientação farmacêutica é indispensável ao paciente que faz uso de um MIP.

Farmacêutico: peça chave na dispensação do MIP

Quanto aos novos critérios da Anvisa, Fernanda avalia as mudanças como positivas. “Possivelmente, teremos mais medicamentos se enquadrando como MIP, mas é preciso lembrar a importância do uso adequado desses produtos, de maneira responsável e com a orientação do farmacêutico”, acrescenta. Ele é o profissional de saúde que mais conhece sobre os medicamentos, sendo o mais acessível à população. “Com todas essas mudanças, o farmacêutico terá a chance de aprimorar a sua atuação na farmácia por meio da consulta farmacêutica e da prescrição de MIP”, defende.

Para a vice-presidente executiva da Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip), Marli Sileci, o farmacêutico é uma peça-chave para a dispensação e distribuição de medicamentos para o consumidor. Ela cita uma passagem do acordo de colaboração entre o Grupo Farmacêutico da Comunidade Europeia (PGEC) e da Associação Europeia de Produtores de Medicamentos Industrializados (AESCP), de 1993, que fala sobre o assunto. “O farmacêutico, na sua qualidade de profissional e no contato direto com pacientes, é capaz de administrar aconselhamentos necessários sobre os medicamentos que ele fornece”, diz o acordo.

Marli explica que cabe a esse profissional a responsabilidade de promover informações sobre esses medicamentos e também orientar sobre como usá-los corretamente, promovendo então o conceito da atenção farmacêutica. “Em caso de dúvidas do consumidor, o farmacêutico deverá aconselhar a ler o rótulo e a bula do medicamento e também auxiliá-lo quanto à posologia, duração do tratamento, modo de ação do fármaco, possíveis reações adversas, contraindicações e interações com outros medicamentos ou alimentos”, acrescenta a executiva. Nos casos em que os sintomas persistirem, Marli diz que o farmacêutico deverá orientar o paciente a procurar um médico.

De acordo com a Resolução RDC 44/09, farmácias e drogarias estão autorizadas a manter os medicamentos isentos de prescrição ao alcance do consumidor. No Estado do Rio de Janeiro, existe ainda a Lei Estadual nº 5.726/10, que permite o autosserviço para MIP, que são os analgésicos, antitérmicos, complementos vitamínicos e antiácidos. Mesmo assim, a interferência do farmacêutico para a orientação continua sendo fundamental para garantir a qualidade e a eficácia do tratamento.

Há alguns anos, a Abimip começou a promover o conceito de autocuidado, que nada tem a ver com automedicação. Segundo a entidade, a automedicação refere-se ao ato de ingerir por conta própria medicamentos que exigem prescrição. Já o termo autocuidado está ligado a um tratamento multidisciplinar adotado para manter a saúde e prevenir doenças, envolvendo o uso consciente de um MIP. “Por esses motivos, definimos a utilização responsável do MIP como sendo uma prática de autocuidado, alinhada à classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS)”, explica Marli.

Cinco dicas para a correta dispensação de um MIP

– Buscar educação continuada sobre esse tipo de medicamento.
– Fazer a leitura dos rótulos e bulas dos medicamentos para uma orientação adequada.
– Atentar sobre o uso de outros medicamentos para verificar a existência de alguma interação medicamentosa.
– Explicar ao paciente sobre dosagens e posologia indicadas na bula.
– Se os sintomas forem frequentes, alertar o paciente para que procure um médico.

Fonte – Ascoferj

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